sábado passado, no Globo, uma nota breve falava sobre Toni Bentley, esta bailarina australiana que agora faz o maior sucesso publicando um livro confessional sobre sexo anal (que horror, rimou). a semana toda o assunto ficou se revolvendo na minha cabeça, tenho que escrever sobre isso no blog, tenho que… e a semana transcorrendo e eu ocupada, milhões de coisas pra fazer, publicidade para o Orgasmax, um novo site para o Alan que começa segunda feira a dar aulas de inglês online, mais um anúncio para ele, e colocar cortinas novas na casa da mamãe e feriado, e ar atenção a tudo… um décimo da aflição que me dá este meu livro inacabado no folder do computador (antigamente, na gaveta…) e hoje a nota do Globo deu cria, virou entrevista de primeira página no Caderno Ela, definitivamente "o" assunto. Agora eu não escapo.
a Toni reclamando das mulheres, que não se identificam com ela como ela esperava mas sim criticam, acusando-a de ter dado um passo atrás na trajetória do feminismo… e de como ela quer mostrar que é escritora, sofisticada, intelectual, e ainda assim tem este ataque de confessionalismo, bem, está na moda… e eu surfando na moda apesar de minha intenção passar longe disso enquanto escrevo este blog sempre que posso e me aflijo com minhas próprias confissões sexuais de meia idade criando mofo na gaveta do computador
Me identifico com a Toni quanto a se mostrar sexual, entre outras características; é assim que somos, nós mulheres, passionais, emocionais, inteligentes, atuantes… e sexuais. acho que somos todas assim e algumas de nós se expressam mais facilmente que outras… como a Toni fui tímida, educacionalmente reprimida, culturalmente treinada no recato ou no dar-se pouco ao prazer… como a Toni encontrei o parceiro certo pra me livrar de tudo isso e me tornar um ser humana íntegra, exibindo todas as facetas com igual brilho como uma gema bem lapidada. só não concordo com esta coisa de submissão. não sei pq certas coisas são tabu…
porque sexo anal seria, nas palavras d’O Globo um tabu? pra mim é apenas parte do sexo na vida que a gente leva: se é bom, gostoso, fazemos, se dói ou incomoda, não. pra mim, nada a ver com submissão… nem especialmente divino… divino é o encontro de alma, de corpo, de pele, de energia com o companheiro, não uma ou outra posição sexual – variar a posição, aliás, não acrescenta nada ao prazer, prazer que vem da abertura, do encontro, não da reprodução forçada de ideias falsas sobre como chegar ao orgasmo, de malabarismos ridículos em busca de um alfabeto genital misterioso que eu não sei ler.
durante uma época da minha vida encontrei homens que valorizavam especialmente este sexo traseiro, oculto, talvez por terem implantado fundo na psiquê esta ideia de que é uma forma de submeter, escravizar a mulher, este ser incômodo que ninguém entende… um de meus amantes estúpidos, que por carência mantive por algum tempo, chegou ao ponto de, depois de eu ter cedido minha bunda a ele uma única vez, me ligar o tempo todo pra falar disso, e dizer que queria mais, e mais… até que deixei claro meu desgosto com ele, fiz o óbvio aparecer, ele apenas vivia numa auto-ilusão de poder ridícula que eliminou com eficiência a pouca atração que eu pudesse sentir…
pareço submissa? depois deste imbecil passei a evitar a "tribo dos comedores de cu" e sua atividade preferida, ou melhor, passei a evitar os imbecis, vazios e iludidos, na medida do possível, já que às vezes, sem querer, a gente cai, se engana, mente pra si própria por um pouco de falsa alegria… outras vezes, poucas, pratiquei de novo, pra conferir, porque eu pensava ter prazer. lembro-me de meu primeiro amante tântrico, um espanhol que se chamava, acreditem, Garcia Lorca, de verdade. vivi com ele em Pirenópolis, cultivei com ele uma fantasia de alma gêmea logo depois do doloroso fim de meu primeiro casamento internauta em Brasília. pois Garcia Lorca tinha aquela capacidade tântrica de manter a ereção por horas, e horas, e horas…
uma revelação para mim, até o dia em que ele disse que o emprego dele era me fazer feliz. bem, mas muito antes do fim, aquela tarde no meu chalé mínimo de Pirenópolis, quando eu resolvi medir no pêndulo a energia gerada por nossa atividade sexual… a energia era enorme, fazia o pêndulo girar, girar, não sei de onde vinha, se da minha mente, da nossa genitália, se era real… o fato é que tentamos por trás pra medir a energia, senti que me fazia mal e nunca mais. o tabúuuuu tomou conta e se re-instalou em mim por muitos anos. mas agora tudo isso perdeu o sentido. estou nesta vida de intimidade total com um parceiro onde todas as restrições se desfazem como fiapos de uma colcha velha e remendada que não aquece mais; tabu é só uma palavra que pretende assustar, e assusta: criada para fazer as criancinhas se comportarem, do ponto de vista dos pais.
quando você se torna adulto, dono de si, uma pessoa inteira, consciente, madura, não existe tabu, vive-se em plenitude, em contato com o melhor de nós. bem, se ainda não estou lá, estou a caminho e pelo menos vejo clara a estrada. Sexo anal então é assim: às vezes eu quero. estou escrevendo e o Alan chega por trás e põe a mão em meus seios, e ele tem uma mão quente e ampla, uma mão que cura qualquer dor (às vezes também causa algumas, falamos de abertura total, de confiança, intimidade, mas não de pessoas perfeitas, apenas humanas). então quando eu quero, e o Alan quer também, tentamos fazer, porque às vezes incomoda e paramos. na primeira vez que fizemos, confesso, orgasmei. esta semana doeu, desistimos… como tudo na cama, então, às vezes rola e não me sinto reprimida ou culpada, ou pecadora… só normal. às vezes penso que a gente não sabe bem o que é ser normal, uma mulher normal, aberta, experimentando a vida. é difícil abrir-se assim, mas, para mim, é este o único caminho para qualquer tipo de felicidade. ainda me preocupo às vezes com estereótipos, quem sustenta a casa, quem ganha dinheiro, quem faz este papel no casal, aquele…
mas o fato é que pela primeira vez na vida estou no amor, em estado de amor, nada mais que esta energia espontânea, compartilhada em cada momento, quando no café da manhã de sábado o Alan diz que lê a minha mente. "Que bom, então, meu amor, você é meu sonho realizado: um amante com quem eu não preciso falar, que me entende no silêncio, me vê, me sabe como sou." e ele agradece porque eu não me escondo, me revelo, uma mente sem véu, sem jogo. é sábado, faz sol lá fora, e eu tenho um bocado de trabalho hoje…
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